Um poema de Ary dos Santos
Personalidade marcante do último quartel do século XX
 
"ser poeta é escolher as palavras
que o povo merece".
 
Ary morreu há 20 anos. Em Janeiro. No dia 18. Temos a obrigação de o manter vivo. Corremos sério risco de extinção (cívica e cultural) se não nos exercitarmos com a sua voz, com as vozes de todos os mortos e de todos os vivos que justificam a espécie humana.(...)

Aqui Jaz Ary dos Santos


SENTADO NO MURO DO CEMITÉRIO
A VER PASSAR A CLASSE OPERÁRIA

por César Príncipe
     
 Poeta castrado, não!
        
     Serei tudo o que disserem
     Por inveja ou negação:
     Cabeçudo dromedário
     Fogueira de exibição
     Teorema corolário
     Poema de mão em mão
     Lãzudo publicitário
     Malabarista cabrão.
     Serei tudo o que quiserem:
     Poeta castrado, não!
        
     Os que entendem como eu
     As linhas com que me escrevo
     Reconhecem o que é meu
     Em tudo quanto lhes devo:
     Ternura como já disse
     Sempre que faço um poema;
     Saudade que se partisse
     Me alagaria de pena;
     E também uma alegria
     Uma coragem serena
     Em renegar a poesia
     Quando ela nos envenena.
     
     Os que entendem como eu
     A força que tem um verso
     Reconhecem o que é seu
     Quando lhes mostro o reverso:
     Da fome já não se fala
     -É tão vulgar que nos cansa-
     Mas que dizer de uma bala
     Num esqueleto de criança?
        
     Do frio não reza a história
     -a morte é branda e letal-
     Mas que dizer da memória
     De uma bomba de napalm?
        
     E o resto que pode ser
     O poema dia a dia?
     -Um bisturi a crescer
     Nas coxas de uma judia;
     Um filho que vai nascer
     Parido por asfixia?!
     -Ah não me venham dizer
     Que é fonética a poesia!
        
     Serei tudo o que disserem
     Por temor ou negação:
     Demagogo mau profeta
     Falso médico ladrão
     Prostituta proxeneta
     Espoleta televisão.
     Serei tudo o que disserem:
     Poeta castrado, não!

 
viva-tavira©