Fábula Cábula
RETRATO EXACTO, EXACTO, EXACTO
Tem-se o lobo por grande D. Juan:
Lábia de sedutor
olhos em alvo «amor, oh doce amor
minha bela riqueza carneirã!»
Era assim o paleio e grande chave.
As pequenas levava com «my love»
ou então «I love you»
- formado em Hollywood, o gabiru!
Chegou, diz-se, a tormar uma cadela
lá na serra da Estrela
de muito lombo e muito assenhorada.
Murmurava-se que é língua, que é balela
- mas a balela se é, é bem achada.
Ora lá veio o dia
dessa fome total de eternidade:
pensou na grande perda que seria pra toda
a lobidade
se de si não ficasse
nenhum sinal da sua gentil face.
Ora, havia ali perto um papagaio
artista, e porque artista, não lacaio.
Senhor de um bico de riscar o aço
aos poderosos nãp ligava boia:
assinava os quadros Papagoya.
Papagoya começa a trabalhar
Alambaza-se em cânhamo e pevide.
O lobo escuta os folhetins do Tide
para se concentrar
Quando já começava a ficar tonto
está o quadro pronto.
Sorri o lobo só de imaginar-se
em todo o seu folclórico disfarce
Mas eis que dá um pulo
espezinha o cogulo
uiva, geme, delira
respira fogo e ira
Monstro de ameaças, parte.
Se o calmo Papagoya não se pira
era dia de luto para a arte.
O porquê da loucura nãp nos passa.
o bicho na rtetrato está lá todo:
uma bola de lodo
a trôpega linguaça
olhos-clarões dementes
a perna, o músculo, a garra,
o anjo sem perdão.
Restos de ssangue estão
manchando-lhe a peituça e a bocarra.
Assim era o retrato
exacto, exacto, exacto.
O lobo não se gosta de ver nele?
É natural, porque a verdade custa.
Mas quem esconde e não o pinta à justa
inda é pior do que ele.
MÁRIO CASTRIM
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