Mário Castrim
Fábula Cábula
RETRATO EXACTO, EXACTO, EXACTO

Tem-se o lobo por grande D. Juan:
Lábia de sedutor
olhos em alvo «amor, oh doce amor
minha bela riqueza carneirã!»
Era assim o paleio e grande chave.
As pequenas levava com «my love»
ou então «I love you»
- formado em Hollywood, o gabiru!
Chegou, diz-se, a tormar uma cadela
lá na serra da Estrela
de muito lombo e muito assenhorada.
Murmurava-se que é língua, que é balela
- mas a balela se é, é bem achada.
Ora lá veio o dia dessa fome total de eternidade: pensou na grande perda que seria pra toda a lobidade se de si não ficasse nenhum sinal da sua gentil face. Ora, havia ali perto um papagaio artista, e porque artista, não lacaio. Senhor de um bico de riscar o aço aos poderosos nãp ligava boia: assinava os quadros Papagoya.
Papagoya começa a trabalhar Alambaza-se em cânhamo e pevide. O lobo escuta os folhetins do Tide para se concentrar
Quando já começava a ficar tonto está o quadro pronto. Sorri o lobo só de imaginar-se em todo o seu folclórico disfarce Mas eis que dá um pulo espezinha o cogulo uiva, geme, delira respira fogo e ira Monstro de ameaças, parte. Se o calmo Papagoya não se pira era dia de luto para a arte. O porquê da loucura nãp nos passa. o bicho na rtetrato está lá todo: uma bola de lodo a trôpega linguaça olhos-clarões dementes a perna, o músculo, a garra, o anjo sem perdão. Restos de ssangue estão manchando-lhe a peituça e a bocarra.
Assim era o retrato exacto, exacto, exacto. O lobo não se gosta de ver nele? É natural, porque a verdade custa. Mas quem esconde e não o pinta à justa inda é pior do que ele. MÁRIO CASTRIM
   
in: A MOSCA, Sábado, 20 de Janeiro de 1973

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