Poemas de Fernando Pessoa
"Criei em mim várias personalidades. Crio personalidades constantemente. Cada sonho meu é imediatamente, logo ao aparecer sonhado, encarnado numa outra pessoa, que passa a sonhá-lo, e eu não.
"Só uma grande intuição pode ser bússola nos descampados da alma; só com um sentido que usa da inteligência, mas se não assemelha a ela, embora nisto com ela se funda, se pode distinguir estas figuras de sonho na sua realidade de uma a outra.
AUTOPSICOGRAFIA
    O poeta é um fingidor.
    Finge tão completamente
    Que chega a fingir que é dor
    A dor que deveras sente.
    
    E os que lêem o que escreve,
    Na dor lida sentem bem,
    Não as duas que ele teve,
    Mas só a que eles não têm.
    
    E assim nas calhas de roda
    Gira, a entreter a razão,
    Esse comboio de corda
    Que se chama coração.
Fernando Pessoa
 
      Tudo o que faço ou medito
      Fica sempre na metade.
      Querendo, quero o infinito.
      Fazendo, nada é verdade.
      
      Que nojo de mim me fica
      Ao olhar para o que faço!
      Minha alma é lúdica e rica,
      E eu sou um mar de sargaço ---
      
      Um mar onde bóiam lentos
      Fragmentos de um mar de além...
      Vontades ou pensamentos?
      Não o sei e sei-o bem.

Fernando Pessoa, 13-9-1933

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