Poema de José Gomes Ferreira

Os relógios não marcavam as horas, os minutos e os segundos, mas os séculos ...
As Aventuras Maravilhosas de João Sem Medo
Romance publicado em Lisboa em 1963, na Colecção Contemporânea da Portugália Editora.

É tão fácil dizer que saem dos olhos das mulheres andorinhas verdes


(Crítica à poesia das imagens aos cachos. Como de costume, autocrítica)

    É tão fácil dizer que saem dos olhos das mulheres andorinhas verdes
    ou chamar à lua a caveira voada da flâmula dum navio pirata!
    Mas a poesia - onde está?
A poesia que transforma de repente a música em lâmina para romper a noite até à solidão dos archotes que escurecem mais e mais este abismo absurdo sem astros de céu vivo onde as pedras apodrecem e as andorinhas verdes não saem dos olhos das mulheres? Mas a outra poesia - onde está? Essa esperança convicta de teimar na certeza do nada com explicações de papoilas e esqueletos a abraçarem-se no amor final já sem sentido de bandeiras? Sim. Onde está? Que palavra abre para além da luz secreta que os dedos dos mortos acendem no perfume das flores? Sim. Onde está?


Poesia de rasgar pedras.
Poesia da solidão vencida.
Poesia das pombas assassinadas.
Poesia dos homens sem morte.
(Eléctrico XLI, Poesia III)

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