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Manuel Lopes da Fonseca nasceu em Santiago do Cacém, em 1911. Fez os estudos secundários em Lisboa, tendo se dedicado desde cedo ao jornalismo. Em 1925 publicou num semanário de província os seus primeiros versos e narrativas.
Iniciou se em poesia com a colectânea ?Rosa dos Ventos? (1940) e na ficção, com os contos ?Aldeia Nova? (1942). Ligado ao neo realismo, evoluiu no sentido de um regionalismo crescente, ligado ao seu Alentejo natal, retratando o povo desta região e a miséria por ele sofrida. Contestatário e observador por natureza,
a sua escrita era seguida de perto pela censura. Colaborou em várias
publicações, de que se destacam as revistas "Afinidades", "Altitude",
"Árvore", "Vértice", "O Pensamento", "Sol Nascente", "Seara Nova", os
jornais "O Diabo"e "Diário" e fez parte do |
grupo do"Novo Cancioneiro". Escreveu, para além das obras referidas, os volumes de
poesia"Planície" (1941), "Poemas Completos" (1958), "Poemas Dispersos"
(1958), os contos "O Fogo e as Cinzas" (1951), "Um Anjo no Trapézio" (1968),
"Tempo de Solidão" (1973), "Crónicas Algarvias" (1986), e os romances
"Cerromaior" (1943), e "Seara de Vento" (1958). Colaborou também no jornal
"A Capital" em 1986, com as "Crónicas Algarvias". Preparou ainda a
"Antologia de Fialho de Almeida" (1984). Manuel da Fonseca faleceu em 1993.
in: http://www.truca.pt/ouro/biografias1/manuel_fonseca.html |
MATARAM A TUNA
Manuel da Fonseca
Nos Domingos antigos do bibe e pião
saía a Tuna do Zé Jacinto
tangendo violas e bandolins
tocando a marcha Almadanim.
Abriam janelas meninas sorrindo
parava o comércio pelas portas
e os campaniços de vir à vila
tolhendo os passos escutando em grupo.
Moços da rua tinham pé leve.
o burro da nora da Quinta Nova
espetava orelhas apreensivo
Manuel da Água punha gravata!
Tudo mexia como acordado
ao som da marcha Almadanim
cantando a marcha Almadanim.
Quem não sabia aquilo de cor?
A gente cantava assobiava aquilo de cor...
(só a Marianita se enganava
ai só a Marianita se enganava
e eu matava-me a ensinar...)
que eu sabia de cor
inteirinha de cor
e para mim domingo não era domingo
era a marcha Almadanim!
Entanto as senhoras não gostavam
faziam troça dizendo coisas
e os senhores também não gostavam
faziam má cara para a Tuna:
- que era indecente aquela marcha
parecia até coisa de doidos:
não era música era raiva
aquela marcha Almadanim.
Mas Zé Jacinto não desistia.
Vinha domingo e a Tuna na rua
enchendo a rua enchendo as casas.
Voavam fitas coloridas
raspavam notas violentas
rasgava a Tuna o quebranto da vila
tangendo nas violas e bandolins
a heróica marcha Almadanim!
Meus companheiros antigos do bibe e pião
agora empregados no comércio
desenrolando fazenda medindo chita
agora sentados
dobrados nas secretarias do comércio.
cabeças pendidas jovens-velhinhos
escrevendo no Deve e Haver somando somando
na vila quieta
sem vida
sem nada
mais que o sossego das falas brandas...
- onde estão os domingos amarelos verdes
azuis encarnados
vibrantes tangidos bandolins fitas violas gritos
da heróica marcha Almadanim?!
Ó meus amigos desgraçados
se a vida é curta e a morte infinita
despertemos e vamos
eia!
vamos fazer qualquer coisa de louco e heróico
como era a Tuna do Zé Jacinto
tocando a marcha Almadanim!
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in: http://www.inforarte.com/cantando2/ManFon1.html |